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Construir hoje as redes que vão liderar a investigação europeia de amanhã

Eduardo García
Líder da área de Ciência e Educação de Projetos europeus
DEFESA
O forte aumento do investimento europeu na defesa cria uma oportunidade para as empresas portuguesas de materiais avançados, tecnologias digitais e cibersegurança se posicionarem antes do início do próximo ciclo de financiamento
O essencial
A rápida expansão do investimento europeu na defesa cria uma oportunidade significativa para as empresas tecnológicas portuguesas. As empresas que trabalham em áreas adjacentes, como materiais avançados, tecnologias digitais e cibersegurança, podem aproveitar 2026 e 2027 para adaptar capacidades existentes, criar parcerias industriais e preparar-se para o próximo ciclo de financiamento europeu.

Consultor sénior de inovação
A defesa deslocou-se rapidamente para o centro da política industrial e de inovação europeia. O sinal mais visível é a proposta da Comissão Europeia para o próximo Quadro Financeiro Plurianual, que abrange o período de 2028 a 2034. O orçamento da UE proposto totaliza quase 2 biliões de euros e aumenta substancialmente os recursos dedicados à segurança e à autonomia estratégica. Neste quadro, seriam afetados 131 mil milhões de euros à defesa, segurança e espaço através do Fundo Europeu de Competitividade. Isto representaria um aumento de cinco vezes do financiamento ao nível da UE em comparação com o atual período de programação.
A Europa procura reforçar a sua própria capacidade tecnológica e industrial no domínio da defesa. Isto coloca uma questão correspondente às empresas europeias: que tecnologias, capacidades e fornecedores farão parte da base industrial que emergirá deste ciclo de investimento?
A defesa não deve ser interpretada exclusivamente como uma oportunidade para fabricantes estabelecidos de plataformas, armas ou equipamentos militares. Os sistemas de defesa modernos dependem de uma base tecnológica muito mais ampla. Aeronaves, sistemas não tripulados, plataformas navais, redes de comunicações e sistemas de comando e controlo dependem da ciência dos materiais, software, cibersegurança, inteligência artificial, sensores, eletrónica, telecomunicações e fabrico avançado.
A própria estrutura tecnológica da Agência Europeia de Defesa (AED) reflete esta amplitude, com áreas específicas dedicadas a materiais e estruturas, sistemas de comunicação, tecnologias cibernéticas, simulação, sensores, sistemas aéreos e outras capacidades facilitadoras.
Para as empresas que atualmente se encontram fora do setor da defesa, a questão estratégica deve ser agora: «Poderá a nossa tecnologia atual resolver um problema relevante de defesa?»
Em muitos casos, a transição não exige abandonar os mercados civis existentes nem desenvolver uma tecnologia inteiramente nova. Exige identificar uma aplicação credível na defesa e compreender que adaptação, ensaios, certificação ou integração adicionais são necessários.
Mais uma vez, a tecnologia de base pode já existir. O que muda são os requisitos que a envolvem: níveis mais elevados de cibersegurança, resiliência, interoperabilidade, soberania e capacidade de operar em ambientes hostis ou degradados.
Esta mudança europeia coincide com uma alteração importante em Portugal. Na sequência da reprogramação aprovada no final de 2025, o Portugal 2030 pode prestar apoio financeiro a projetos no setor da defesa. Prevê-se que estes investimentos sejam apoiados principalmente através dos programas regionais do continente e possam ser complementados através do COMPETE 2030, incluindo no âmbito da STEP.
Isto é importante porque uma das principais barreiras enfrentadas pelas empresas que entram no setor da defesa é a diferença entre possuir uma tecnologia promissora e possuir uma tecnologia que um parceiro industrial da defesa consiga efetivamente integrar.
Uma empresa pode ter de redesenhar um produto, demonstrar interoperabilidade, melhorar a cibersegurança, testá-lo em condições ambientais exigentes, aumentar a escala do seu processo de fabrico ou validar a tecnologia em conjunto com uma entidade do setor da defesa.
No entanto, o seu valor estratégico pode ir além do próprio projeto nacional. O Fundo Europeu de Defesa é fundamentalmente colaborativo, apoiando a cooperação entre empresas e organizações de investigação de toda a Europa. A entrada em consórcios competitivos do FED exige, em geral, capacidades tecnológicas estabelecidas, papéis industriais claros e relações entre organizações que compreendam o contributo que cada parceiro pode dar.
Um projeto STEP português pode, por conseguinte, ser utilizado para construir antecipadamente essas posições:
O percurso pode, assim, ser entendido como uma progressão: tecnologia civil ou de dupla utilização existente → I&D e validação nacionais na defesa → referências no setor da defesa e parcerias industriais → I&D colaborativa europeia → integração nas cadeias de valor europeias da defesa.
O objetivo deve ser utilizar o aviso nacional STEP para criar a maturidade tecnológica, a credibilidade e as parcerias necessárias para a etapa seguinte.
A proposta de orçamento europeu para 2028–2034 ainda tem de passar pelo processo legislativo e orçamental da UE, pelo que a sua arquitetura e os montantes finais podem evoluir. O que já é claro é a dimensão da mudança política e financeira: a Comissão propôs um aumento de cinco vezes do financiamento ao nível da UE para defesa, segurança e espaço e um aumento de dez vezes para a mobilidade militar.
Para as empresas tecnológicas portuguesas, esperar até 2028 para reagir seria um erro.
Até lá, muitas das tecnologias, parcerias e posições industriais que concorrerão a futuro financiamento europeu poderão já estar estabelecidas.
As empresas que trabalham com materiais avançados devem identificar aplicações credíveis no setor aeroespacial, sistemas não tripulados, proteção, propulsão e outros ambientes exigentes.
As empresas digitais e de cibersegurança devem avaliar em que medida as capacidades em IA, comunicações, computação periférica, simulação, tratamento de dados e ciber-resiliência podem responder às necessidades da defesa.
Em cada caso, o objetivo é semelhante: identificar a aplicação, compreender a lacuna tecnológica, encontrar os parceiros industriais certos e utilizar o financiamento disponível para colmatar essa lacuna.
O próximo ciclo europeu de investimento na defesa começa formalmente com o próximo orçamento da UE. Para as empresas que pretendem uma posição relevante nesse ciclo, começa agora.

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