A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, utilizou o seu discurso sobre o Estado da União (SOTEU) de 2026 para apresentar uma agenda cada vez mais centrada na capacidade da Europa para transformar a inovação em capacidade industrial.
A mensagem global foi de independência europeia: reduzir as dependências estratégicas, reforçando simultaneamente as tecnologias, infraestruturas, capacidades industriais e parcerias consideradas críticas para os interesses económicos e de segurança da Europa.
Para a comunidade europeia de investigação e inovação, destacam-se vários anúncios.
A IA industrial chega à economia real
A inteligência artificial ocupou um lugar de destaque no discurso, tanto como oportunidade económica como capacidade estratégica.
A Comissão pretende aumentar «massivamente» a capacidade europeia de computação, desenvolvendo simultaneamente novos mecanismos que combinem financiamento público e privado para empresas tecnológicas europeias promissoras.
No entanto, o sinal mais relevante para a I&I poderá ser a ênfase colocada na IA industrial.
Em vez de se concentrar exclusivamente nos modelos de fronteira, a Comissão pretende acelerar a implementação da IA na economia real: fábricas, hospitais, agricultura, sistemas de transporte, redes energéticas e aplicações de defesa.
Foram especificamente identificados cinco setores:
- saúde;
- transportes;
- agroalimentar;
- indústria transformadora avançada;
- defesa e espaço.
A Comissão prevê anunciar novas iniciativas nestas cinco áreas em novembro.
Ao mesmo tempo, a Europa pretende reforçar a cooperação internacional na avaliação e verificação de modelos de IA, sistemas de alerta precoce e segurança da IA.
Energia: redes e armazenamento tornam-se uma questão de competitividade
A energia continua estreitamente ligada à agenda de competitividade industrial da UE.
Segundo a Comissão, a Europa instalou mais de 80 GW de capacidade renovável no ano passado. No entanto, uma capacidade equivalente a seis vezes esse valor continua à espera de ligação à rede.
A Comissão pretende, por isso, acelerar a implementação do Pacote Redes, agilizar as ligações e aumentar o investimento no armazenamento de energia.
O objetivo mais amplo é duplicar a quota da eletricidade até 2040. De acordo com os números apresentados no SOTEU, alcançar este objetivo poderá reduzir a fatura europeia de importação de combustíveis fósseis em cerca de 260 mil milhões de euros por ano.
Para os promotores de tecnologia, a mensagem reforça o papel estratégico das redes inteligentes, do armazenamento, da eletrificação industrial, da flexibilidade e da integração das energias renováveis.
Uma Corporação Europeia para as Matérias-Primas Críticas
As matérias-primas críticas constituíram outro importante anúncio industrial.
A Europa continua mais de 80% dependente da China para muitas matérias-primas críticas, atingindo essa dependência 90% no caso de algumas terras raras.
A Comissão criará uma nova Corporação Europeia para as Matérias-Primas Críticas, destinada a ajudar a Europa a adquirir e constituir reservas de materiais estratégicos.
A iniciativa está explicitamente ligada a cadeias de valor que incluem veículos elétricos, semicondutores, baterias, tecnologias limpas e defesa.
Isto reforça a importância das capacidades europeias na extração, processamento, reciclagem, circularidade, substituição de materiais e cadeias de abastecimento mais resilientes.
Uma nova aliança industrial e tecnológica com o Canadá
Um dos anúncios internacionais mais significativos foi a proposta de levar as relações UE-Canadá para além do CETA através de uma nova «Aliança para o Futuro».
Com o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, presente no SOTEU, von der Leyen propôs uma cooperação que abrange a produção inteligente, a integração da indústria de defesa, a energia, os minerais críticos, as baterias, a IA, as tecnologias quânticas, a cibersegurança, a segurança económica e o Ártico.
A relação económica já apresenta um dinamismo significativo: segundo a Comissão, o comércio de bens entre a UE e o Canadá aumentou 75% em menos de uma década ao abrigo do CETA.
A iniciativa ilustra uma mudança mais ampla no sentido de utilizar as parcerias internacionais não apenas para o comércio, mas também para assegurar cadeias de valor tecnológicas e industriais estratégicas.
A adaptação climática torna-se uma prioridade tecnológica e industrial
A Comissão apresentou também, de forma crescente, a adaptação climática como uma oportunidade de inovação e de mercado.
Está previsto para o próximo mês um novo Quadro de Resiliência Climática. Este identificará 100 dos territórios mais vulneráveis da Europa e avaliará os riscos que enfrentam e o nível adequado a que deverão ser abordados.
Foram anunciadas várias iniciativas adicionais:
- uma Aliança para os Seguros Climáticos;
- um Plano Europeu para as Ondas de Calor;
- uma Iniciativa Europeia para a Água;
- e trabalhos com vista a uma possível Frota Europeia de Combate a Incêndios.
A Comissão destacou tecnologias como culturas resistentes à seca, prevenção de inundações, sistemas de alerta precoce e refrigeração energeticamente eficiente como áreas em que a Europa poderá desenvolver liderança industrial.
O desafio do financiamento é igualmente substancial: atualmente, apenas cerca de 25% das perdas resultantes de catástrofes na Europa estão cobertas por seguros privados.
Defesa, espaço e capacidades de dupla utilização
A defesa e a segurança ocuparam um lugar de destaque no discurso.
A Comissão anunciou um novo Instrumento Europeu para Facilitadores Estratégicos, centrado em capacidades que incluem defesa aérea e antimíssil, transporte estratégico, reabastecimento em voo, espaço e cibersegurança.
A cooperação com a Ucrânia adquirirá também uma dimensão industrial mais forte. A iniciativa Freyja pretende combinar a experiência operacional e a inovação ucranianas com as capacidades tecnológicas e de produção europeias para desenvolver um sistema modular e acessível de defesa antimíssil.
A Comissão pretende também utilizar os fundos SAFE remanescentes para criar um novo programa de projetos conjuntos com empresas ucranianas.
Para além das capacidades industriais, von der Leyen anunciou planos para uma nova Estratégia Europeia de Segurança, um Protocolo de Segurança de Emergência — descrito como um mecanismo europeu complementar ao artigo 4.º da NATO — e um Conselho Europeu de Segurança que envolverá países europeus e parceiros, incluindo a Ucrânia, o Reino Unido, a Noruega e o Canadá.
Deep tech: do financiamento Horizonte ao crescimento à escala europeia
O financiamento do crescimento das empresas tecnológicas europeias foi outro tema recorrente.
A Comissão pretende explorar novas formas de combinar capital público e privado para apoiar startups e empresas europeias promissoras, enquanto o Scaleup Europe Fund já começou a realizar os seus primeiros investimentos.
Von der Leyen utilizou a empresa de satélites ICEYE para ilustrar o percurso pretendido.
A empresa recebeu financiamento do Horizonte para desenvolver e demonstrar a sua tecnologia, tendo posteriormente atraído investimento privado e crescido até se tornar uma empresa espacial europeia com presença internacional.
O exemplo sintetiza um desafio mais amplo para a política europeia de inovação: ligar o financiamento de I&D, a demonstração tecnológica, o capital privado e o crescimento à escala industrial.
Licenciamento mais rápido e menor carga administrativa
A rapidez está também a tornar-se parte da agenda de competitividade.
A Comissão pretende propor medidas adicionais para acelerar os processos de licenciamento, sobretudo para projetos considerados de interesse estratégico para a Europa.
Von der Leyen afirmou que as 12 propostas Omnibus da Comissão estão a reduzir a carga administrativa em cerca de 17 mil milhões de euros por ano, apelando simultaneamente a um novo pacto contra o gold-plating por parte dos Estados-Membros.
O roteiro «Uma Europa, Um Mercado» pretende reduzir ainda mais a fragmentação do Mercado Único, enquanto um novo Pacote Bancário se concentrará na simplificação e na fragmentação financeira.
Global Gateway: 12 mil milhões de euros para o Corredor Médio
O SOTEU incluiu também um importante anúncio em matéria de conectividade.
Através da Global Gateway, a UE pretende mobilizar até 12 mil milhões de euros de investimento público e privado para o Corredor Médio, ligando a Ásia Central e o Cáucaso do Sul de forma mais direta ao mercado europeu.
O objetivo é triplicar os fluxos comerciais e reduzir significativamente os tempos de trânsito das mercadorias até 2030, complementado por uma nova Cimeira Regional sobre Conectividade.
Outras iniciativas anunciadas no SOTEU
O discurso foi além da política industrial e de I&I.
Entre as outras iniciativas anunciadas encontram-se uma Lei dos Empregos de Qualidade, um Pacto Europeu para os Cuidados, uma Iniciativa Mediterrânica para as Competências e o Emprego dos Jovens e uma cimeira ligada ao Pilar Europeu dos Direitos Sociais.
Em matéria de migração, a Comissão irá propor um novo Quadro Europeu de Resposta a Emergências, reforçar a Frontex e as capacidades de alerta precoce e desenvolver Gabinetes Gateway em países parceiros.
Von der Leyen anunciou igualmente uma Lei das Crianças (Kids Act), introduzindo proteções diferenciadas para os menores em linha, incluindo a proibição de acesso às redes sociais para menores de 13 anos e restrições às contas pessoais para menores de 15 anos.
A Comissão desenvolverá igualmente roteiros para os candidatos mais avançados à adesão à UE e lançará um novo Congresso da Europa antes do 70.º aniversário do Tratado de Roma.
O que significa o SOTEU 2026 para a I&I europeia?
No seu conjunto, os anúncios apontam para uma evolução da política europeia de inovação.
A investigação continua a ser fundamental, mas a ênfase está cada vez mais no que acontece depois: demonstração, implementação, produção, infraestruturas, acesso a recursos estratégicos e crescimento das empresas tecnológicas europeias.
Para as organizações que desenvolvem estratégias e projetos de I&I, várias áreas merecem, por isso, uma atenção particularmente próxima nos próximos meses:
IA industrial e indústria transformadora avançada; defesa, espaço e tecnologias de dupla utilização; redes elétricas e armazenamento de energia; matérias-primas críticas e baterias; adaptação climática e tecnologias da água; e crescimento das deep tech.
O próximo passo será perceber de que forma as prioridades políticas apresentadas em Estrasburgo se traduzem em programas de trabalho da UE, convites à apresentação de propostas, orçamentos e novos instrumentos de financiamento.
Para os inovadores, essa tradução das prioridades políticas em oportunidades concretas de financiamento determinará onde surgirão muitas das próximas oportunidades europeias de I&I.