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Inteligência artificial
A inteligência artificial e a consultoria de inovação
Como transformar a IA em automação, financiamento e propostas de I&D mais sólidas
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O aviso prioriza a reutilização de resultados, a validação tecnológica e a colaboração no ecossistema europeu
O essencial
A Comissão Europeia começa a transpor a estratégia Apply AI para o desenho de alguns concursos do Horizon Europe. Um ‘topic’ sobre robótica baseada em inteligência artificial mostra que as propostas terão de ir além do desenvolvimento tecnológico e demonstrar como reutilizam resultados anteriores, validam soluções em ambientes reais e contribuem para o ecossistema europeu de inovação.
A inteligência artificial europeia está a entrar numa etapa mais exigente. A Comissão Europeia já não procura apenas financiar novas capacidades tecnológicas, mas também acelerar a sua chegada às fábricas e às PME. Esta evolução começa a traduzir-se de forma concreta em algumas linhas de financiamento do Horizon Europe. Um dos exemplos mais claros é o topic HORIZON-CL4-2027-04-DIGITAL-EMERGING-05, dedicado à integração e adoção de robótica baseada em inteligência artificial. O aviso continua a impulsionar o desenvolvimento de novos algoritmos, sensores ou sistemas robóticos, mas desloca o centro de gravidade para a integração de tecnologias já disponíveis, a sua validação em ambientes industriais e uma adoção mais rápida por parte das empresas.
“Este topic permite ver com bastante clareza para onde se está a mover Bruxelas”, explica Luis Javier Pérez, consultor da área Digital da Zabala Innovation. “Documentos recentes como o State of the Digital Decade 2026 ou a Apply AI Strategy já apontavam nessa direção. A diferença é que agora essas prioridades começam a traduzir-se em requisitos concretos dentro dos concursos”, acrescenta. O desenvolvimento tecnológico continuará a ser necessário. A Comissão Europeia, no entanto, pede agora que a tecnologia se ligue a necessidades industriais concretas, se integre com outros recursos existentes e gere resultados reutilizáveis.
Desta forma, o topic mencionado incentiva o aproveitamento de ativos europeus como os recursos de AI-on-Demand e o repositório EuroCORE, além de modelos de IA, conjuntos de dados ou benchmarks gerados em iniciativas anteriores. “Esta viragem resultará em projetos menos isolados”, prevê Pérez, partindo da constatação de que “se cada projeto volta a construir as mesmas peças, o avanço abranda; se parte de resultados anteriores e acrescenta novos componentes ao ecossistema, o impacto multiplica-se”.
As empresas que solicitem financiamento para estes projetos terão de explicar que recursos existentes serão utilizados, que componentes poderão ser reutilizados por outros atores e como será facilitada a adoção por utilizadores industriais. “O valor de uma proposta não dependerá apenas do que é capaz de desenvolver, mas também da forma como se integra no ecossistema europeu e do que deixa disponível para quem vier depois”, assinala o especialista.
Neste sentido, a robótica industrial baseada em IA oferece um bom terreno para observar esta evolução. A Europa conta com conhecimento científico, centros tecnológicos, fabricantes, integradores e empresas utilizadoras, mas a adoção em larga escala continua a enfrentar barreiras. Muitas soluções funcionam em laboratório, mas são difíceis de implementar em ambientes produtivos com restrições de segurança, custos, interoperabilidade, manutenção e capacitação.
Assim, os projetos terão de demonstrar que as suas soluções podem ser testadas em casos industriais, ligadas a infraestruturas existentes e responder a necessidades reais de setores produtivos. Instrumentos como as Testing and Experimentation Facilities (TEF), os European Digital Innovation Hubs (EDIH) ou as AI Factories podem desempenhar um papel complementar: validar tecnologias, aproximá-las das PME e reduzir a distância entre o laboratório e o mercado.
Esta abordagem também muda a forma de entender os consórcios. A colaboração europeia já não consiste apenas em reunir parceiros de vários países. Também exige uma melhor ligação a plataformas, normas, repositórios, infraestruturas de experimentação e comunidades técnicas do ecossistema europeu de IA. “As empresas que melhor se posicionarem serão aquelas que saberão explicar não só que problema industrial querem resolver, mas também como vão aproveitar o que a Europa já financiou e como vão transformar os seus resultados em algo útil para outros”, aponta Pérez a este respeito.
Nas suas palavras, “nem todos os próximos concursos do Horizon Europe seguirão necessariamente o mesmo modelo, uma vez que cada topic responde a objetivos e setores diferentes”. No entanto, “a tendência aponta para um critério cada vez mais visível na política europeia de inovação: reduzir duplicações, aumentar a interoperabilidade e transformar os resultados de I&D em soluções que as empresas possam utilizar”, conclui.

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Daniel Errea
Líder da área de Digitalização

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