
Opinião
Inteligência artificial
Um passo em direção a uma inteligência artificial fiável e segura

Daniel Errea
Consultor em Projetos Europeus
Indústria
Estratégias e desafios para impulsionar a competitividade tecnológica europeia


Consultor em Projetos Europeus
À medida que se acelera a corrida global pelo domínio da inteligência artificial (IA), a Europa encontra-se numa encruzilhada. Com os Estados Unidos e a China a avançarem rapidamente em inovação e implementação, a União Europeia tem de agir com determinação para garantir o seu futuro económico. No centro desta resposta está a iniciativa Continente da IA, uma estratégia abrangente para construir ecossistemas competitivos, responsáveis e soberanos. Embora frequentemente apresentada como uma política digital, o seu impacto será mais tangível no núcleo industrial da Europa.
Historicamente, a Europa tem sido uma referência em sectores como o automóvel, aeroespacial, energético e de fabrico avançado. A competitividade, contudo, já não se define apenas por capital físico ou mão-de-obra qualificada, mas pela capacidade de integrar IA em larga escala. Sem progressos neste domínio, a Europa corre o risco de ficar para trás em produtividade, inovação e controlo da cadeia de valor. A fragmentação digital, os sistemas legados e o acesso limitado a infraestruturas-chave — como a potência computacional ou os dados massivos — continuam a limitar a sua capacidade competitiva. Apesar da sua liderança em investigação e em quadros éticos, a Europa encontra dificuldades em escalar a inovação.
Neste contexto, o Continente da IA apresenta-se não apenas como um impulso para a construção de capacidades digitais, mas como uma verdadeira estratégia industrial. Inserido na Década Digital da UE e alinhado com iniciativas como o Pacto Ecológico Europeu, o Global Gateway ou o Chips Act dos EUA, o plano visa impregnar a economia e a indústria europeias com inteligência artificial.
Para evitar a fragmentação nacional habitual, o Continente da IA propõe uma resposta estruturada à escala continental, com o objetivo de reunir recursos e capacidades dos Estados-Membros em torno de um ecossistema robusto, coordenado e competitivo.
Uma das suas prioridades é acelerar a utilização da IA em sectores estratégicos como o fabrico avançado, a mobilidade, a energia e a saúde. Estes domínios, nos quais a Europa concentra uma parte significativa do seu valor acrescentado, oferecem elevado potencial para melhorar a produtividade, a sustentabilidade e a qualidade de vida.
O plano prevê também o desenvolvimento de infraestruturas partilhadas que superem as limitações atuais no acesso a dados e à capacidade de computação. Aposta em plataformas de cloud soberanas, espaços de dados federados e nós de computação de alto desempenho, articulados através das AI factories e das giga AI factories, concebidas como pilares técnicos do ecossistema europeu.
A dimensão colaborativa é reforçada por meio de instalações de teste e experimentação, bem como centros de inovação digital, que permitem validar tecnologias em condições reais e facilitam o acesso das empresas — especialmente PME — a ferramentas, capacidades e apoio técnico.
Ao mesmo tempo, a ética ocupa uma posição central: o Continente da IA promove uma inteligência artificial fiável, centrada nas pessoas e alinhada com os valores democráticos e os direitos fundamentais da UE.
Para garantir a sustentabilidade económica, o plano aposta numa mobilização decidida de investimento público-privado, apoiando-se em programas como o Horizon Europe, Europa Digital e o Mecanismo de Recuperação e Resiliência. O objetivo é alcançar uma escala que permita competir com as grandes potências tecnológicas mundiais.
O plano não considera a IA como um sector isolado, mas como uma tecnologia de uso geral com capacidade para transformar transversalmente a produção. Parte de uma premissa clara: só se a IA for plenamente integrada nos ecossistemas industriais europeus poderá tornar-se um verdadeiro motor de competitividade. A sua abordagem, portanto, vai além do incentivo à inovação pontual e procura uma adoção massiva e estrutural, especialmente entre PME, onde ainda há uma grande margem de melhoria em produtividade.
Um dos elementos-chave é reduzir a dependência tecnológica de fornecedores extraeuropeus. Isto é particularmente crítico em sectores estratégicos como a saúde, a defesa ou a energia, onde sistemas de IA já influenciam decisões sensíveis. Para mitigar esta vulnerabilidade, o plano promove infraestruturas soberanas e a consolidação de campeões tecnológicos europeus, reforçando assim a autonomia industrial face a plataformas e serviços de cloud de países terceiros.
Além disso, a transformação impulsionada pela IA já está a produzir resultados concretos: manutenção preditiva, gémeos digitais que otimizam o consumo energético, ou sistemas de aprendizagem automática que melhoram o controlo de qualidade ou o design de novos materiais. O objetivo é estender estes avanços a toda a base industrial europeia, para que os benefícios não fiquem concentrados num pequeno grupo de empresas nativas digitais, mas que se distribuam por sectores e regiões.
Isto assume ainda mais relevância considerando que uma das grandes forças do tecido industrial europeu é o seu ecossistema de PME. Muitas destas empresas carecem de recursos técnicos, humanos ou financeiros para adotar soluções avançadas de IA. Por isso, o Continente da IA promove instrumentos como as já mencionadas AI factories, os centros de inovação digital e as instalações de teste. Todos estes mecanismos visam reduzir as barreiras de entrada, oferecer apoio técnico e facilitar o financiamento. Trata-se, em última análise, de democratizar o acesso à IA.
Por fim, o plano articula a sua ambição tecnológica com a transição ecológica. A convergência entre IA e sustentabilidade gera oportunidades concretas: desde a otimização das redes energéticas até à redução de emissões logísticas. O plano promove aplicações que não só reforcem a competitividade, mas que contribuam ativamente para os objetivos do Pacto Ecológico Europeu. Trata-se de uma visão que não contrapõe inovação e sustentabilidade, mas que as integra como pilares de um novo modelo industrial.
Apesar da sua ambição, o sucesso do plano enfrenta desafios significativos. Um deles é a escassez de talento especializado em IA, agravada pela fuga de cérebros para os EUA ou o Reino Unido, onde as condições salariais, tecnológicas e regulatórias são mais favoráveis.
Outro obstáculo é a falta de infraestruturas avançadas de computação, especialmente quando comparadas com as dos gigantes tecnológicos norte-americanos. Sem capacidade computacional suficiente, é difícil desenvolver modelos complexos ou processar grandes volumes de dados.
A incerteza regulatória também gera preocupação. Embora a nova Lei da Inteligência Artificial estabeleça um quadro pioneiro para proteger direitos e gerar confiança, a sua aplicação deve ser pragmática. Caso contrário, poderá travar a inovação, sobretudo nas fases iniciais de desenvolvimento.
A fragmentação institucional entre Estados-Membros representa outro risco. Sem uma implementação coordenada, a Europa poderá avançar a ritmos diferentes consoante as capacidades nacionais, criando um ecossistema desigual e menos competitivo.
Para ultrapassar estes desafios, o plano deve assentar em prioridades estratégicas claras. A primeira é escalar o investimento em investigação aplicada, formação de talento e infraestruturas de alto desempenho. São também necessárias parcerias público-privadas por sector que facilitem a integração da IA nas cadeias de valor.
Um segundo eixo é o desenvolvimento de ambientes regulatórios de teste (regulatory sandboxes) que permitam experimentar com IA sob supervisão flexível. Além disso, é essencial simplificar o acesso aos recursos europeus por parte de PME e clusters industriais, que frequentemente enfrentam maiores dificuldades em beneficiar dos mecanismos institucionais.
Por fim, é crucial promover a colaboração transfronteiriça em dados e inovação, para evitar duplicações, melhorar a eficiência do sistema europeu e assegurar que os avanços sejam interoperáveis e escaláveis.
O futuro da indústria europeia dependerá, em grande medida, se esta visão se concretiza. Neste processo, atores-chave como a Zabala Innovation já estão a contribuir ativamente para a construção do novo ecossistema. O seu papel em iniciativas como o AI-BOOST — uma competição europeia baseada em desafios, concebida para acelerar o desenvolvimento de tecnologias emergentes de IA — é um exemplo de como a colaboração público-privada pode traduzir ambições estratégicas em resultados concretos. A corrida pela inteligência artificial não é apenas tecnológica: é também industrial, geopolítica e, sobretudo, uma questão de visão a longo prazo. A Europa ainda vai a tempo de liderá-la.

Sede de Pamplona
Consultor em Projetos Europeus

Opinião
Inteligência artificial

Daniel Errea
Consultor em Projetos Europeus

Opinião
Projetos europeus

Rocío Fernández
Líder da Área de conhecimento de Financiamento de projetos da UE

Opinião
Ambiente

Lander Esparza
Consultor de Projetos Europeus e perito em meio ambiente

Notícias
IA
Em vigor desde 1 de agosto, esta normativa adota uma abordagem baseada no risco potencial desses sistemas para os cidadãos

Opinião
Inteligência artificial

Daniel Errea
Consultor em Projetos Europeus

Publicação
Programas Europeus
Reunimos os convites à apresentação de propostas dos programas Europeus mais relevantes num calendário disponível para download!