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Startups

A ponte entre inovação e escalabilidade no EIC Accelerator

O essencial

No EIC Accelerator, a solidez financeira não acompanha a inovação, valida-a. O programa avalia os projetos segundo uma lógica de investidor e exige que a proposta demonstre não só potencial tecnológico, mas também capacidade real para chegar ao mercado, crescer e sustentar a sua escalabilidade. Por isso, o modelo de negócio, as previsões comerciais, a modalidade de financiamento, o cofinanciamento, o orçamento e a preparação para uma eventual ‘due diligence’ fazem parte do mesmo teste de credibilidade.

A tecnologia não basta. A proposta tem de demonstrar que a empresa consegue transformar a solução num negócio.
O EIC avalia como um investidor. Os avaliadores analisam o mercado, as receitas, os riscos e a capacidade real de execução.
Cada modalidade altera a proposta. A componente financeira tem de se adaptar consoante o projeto peça subvenção, ‘blended finance’ ou investimento.
O orçamento também convence. A coerência entre atividades, recursos e calendário reforça a viabilidade do projeto.
A avaliação não encerra o processo. Em ‘blended finance’ ou investimento, a candidatura tem depois de resistir à ‘due diligence’ e ao diálogo com coinvestidores.
Xabier Semperena

Xabier Semperena

Consultor da Área de conhecimento de Financiamento de projetos da UE

No EIC Accelerator, um dos principais instrumentos de financiamento da União Europeia para startups e PME inovadoras com elevado potencial, a tecnologia e a ambição do projeto são o ponto de partida, mas não bastam por si só. O que realmente demonstra se uma proposta pode avançar é a sua solidez financeira. Não porque o programa atribua menos importância à inovação, mas porque o seu objetivo é acelerar a escalabilidade, a chegada ao mercado e o crescimento da empresa, mais do que financiar I&D de forma isolada. Assim, a avaliação incorpora uma lógica muito próxima da de um investidor: não se analisa apenas o potencial da solução, mas também a capacidade real da empresa para a transformar num negócio.

Esta perspetiva enquadra-se numa evolução mais ampla da política industrial europeia, cada vez mais orientada para reforçar a capacidade produtiva, reduzir dependências críticas e encurtar a distância entre a demonstração tecnológica e o mercado. Nesse contexto, a parte financeira da proposta deixa de ser um anexo e passa a ocupar uma posição central. É a peça que deve demonstrar que o projeto não é apenas interessante do ponto de vista tecnológico, mas também executável, financiável e escalável.

Na prática, os avaliadores querem perceber como é que uma inovação se vai transformar numa oportunidade de mercado. Para isso, analisam em detalhe o modelo de negócio, a estratégia de receitas e as projeções financeiras, verificando a sua coerência com a estratégia de entrada no mercado apresentada pela empresa. Também é importante assegurar que o mercado total potencial, o mercado servível e o mercado alcançável estejam alinhados com as previsões comerciais da empresa. Não basta apresentar um mercado amplo; é necessário demonstrar que a sua dimensão está relacionada com o plano de receitas e com a capacidade real de execução.

Uma lógica financeira adaptada a cada modalidade

Esta componente ganha ainda mais peso num instrumento que pode combinar subvenção e investimento. Nesse contexto, a narrativa financeira permite verificar rapidamente se o impacto prometido assenta numa base sólida: se existe um mercado disposto a pagar, se a proposta de valor pode traduzir-se em captação de valor e se os riscos, incluindo os financeiros, estão identificados e são geridos. Além disso, a escalabilidade deve ser apresentada como uma evolução viável e realista da empresa, refletida em variáveis concretas como o crescimento das vendas, o aumento da equipa ou, no caso das empresas industriais, a ampliação dos ativos de produção.

Um dos erros mais frequentes é tratar esta secção como se pudesse ser construída com uma lógica genérica. Não pode. A arquitetura financeira tem de responder à modalidade de financiamento escolhida, seja apenas subvenção, blended finance ou apenas investimento. Cada uma implica uma combinação distinta de recursos, tempos e expectativas, e isso deve ficar refletido de forma clara na proposta. Em blended finance, esta exigência é particularmente relevante, porque a componente financeira tem de encaixar com precisão no plano de trabalho e no nível de maturidade de cada atividade.

Orçamento e tesouraria sob controlo

Também o cofinanciamento desempenha um papel importante nessa leitura. A subvenção não cobre, em regra, todas as necessidades do projeto, pelo que a empresa tem de explicar de onde virão os recursos adicionais e como irá gerir a tesouraria ao longo dos diferentes marcos. Quando a estrutura de financiamento está bem estruturada, transmite um sinal claro de maturidade operacional. Não se trata apenas de justificar uma necessidade de financiamento, mas de demonstrar que existe uma estratégia financeira consistente para acompanhar o desenvolvimento do projeto.

O mesmo acontece com o orçamento. No EIC Accelerator, a componente de subvenção é executada em regime de lump sum, pelo que o orçamento tem de estar alinhado com as atividades, os recursos e o calendário. O seu valor não está apenas na correção dos números, mas também naquilo que projeta sobre o projeto: capacidade de priorização, viabilidade e controlo. Um orçamento bem construído reforça a perceção de que a empresa sabe o que quer fazer, com que meios e em que prazos.

A dimensão financeira após a seleção

Nos casos de blended finance ou apenas investimento, além disso, a dimensão financeira não termina na avaliação. Após uma seleção positiva, abre-se normalmente um processo de due diligence e de interlocução com o EIC Fund e com potenciais coinvestidores. Por essa razão, a informação financeira incluída na candidatura não deve ser pensada apenas para superar a avaliação, mas também para sustentar esse diálogo posterior. Quando essa base não está suficientemente preparada, o projeto pode perder tração mesmo depois de ter sido selecionado.

Por tudo isto, a parte financeira costuma ser um dos pontos em que uma proposta mais visivelmente se reforça ou se fragiliza. Mesmo com uma tecnologia excelente, o projeto pode não convencer se as projeções não assentarem em pressupostos verificáveis, se o orçamento não estiver relacionado com o plano de trabalho ou se a escalabilidade não estiver corretamente financiada. O EIC espera que a empresa compreenda os seus riscos, seja capaz de os quantificar e apresente uma gestão credível dos mesmos.

No EIC Accelerator, a dimensão financeira é, no fundo, o lugar onde o impacto começa a traduzir-se em execução. É ela que liga a excelência tecnológica à tração de mercado, os marcos às necessidades de tesouraria e o financiamento ao crescimento. Quando essa ligação está bem construída, a proposta deixa de se apresentar apenas como um bom projeto inovador e começa a ser percecionada como uma oportunidade credível de escalabilidade.

Pessoa especialista

Xabier Semperena
Xabier Semperena

Sede de Pamplona

Consultor da Área de conhecimento de Financiamento de projetos da UE