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Reindustrializar a Europa com inteligência artificial

Daniel Errea
Consultor em Projetos Europeus
Redes móveis
A UE avança para o 6G com uma visão centrada na sustentabilidade, ética e soberania digital


Consultor de Projetos Europeus
Imagina um mundo onde cirurgias críticas são realizadas remotamente, em tempo real, sem o mais pequeno atraso. Onde veículos autónomos tomam decisões em frações de segundo com base em enormes fluxos de dados, e estudantes assistem a aulas holográficas realistas a partir de regiões remotas ou continentes distantes. Estes cenários, outrora pertencentes à ficção científica, estão já a ser concebidos no quadro da próxima geração de redes móveis: o 6G.
Do ponto de vista dos atuais programas de investigação e inovação da UE focados nas tecnologias digitais, o 6G não é encarado apenas como uma evolução tecnológica, mas como um momento decisivo para definir como a Europa pretende moldar a sua soberania digital. As decisões políticas e de financiamento que forem tomadas hoje terão um impacto significativo nas redes das quais dependeremos nas próximas décadas.
Se o 5G representou avanços notáveis em velocidade e conectividade, o 6G responde a uma nova vaga de exigências tecnológicas e sociais. A explosão de dados, a integração da inteligência artificial nas operações de rede e a necessidade de comunicações ultra fiáveis e de baixa latência criam, em conjunto, a necessidade de desenvolver uma infraestrutura de rede mais avançada. O 6G pretende dar suporte a aplicações como gémeos digitais, realidade estendida, sistemas autónomos e saúde de precisão.
Os pilares tecnológicos do 6G incluem o uso de frequências na gama dos terahertz para transmissões de dados ultra-rápidas, arquiteturas nativas de inteligência artificial que permitam otimização em tempo real, capacidades integradas de deteção na própria rede e comunicações quânticas para segurança reforçada. Além disso, a convergência entre computação na periferia (edge computing) e em nuvem (cloud computing) permitirá uma distribuição de dados eficiente e uma resposta atempada.
Integrar a inteligência artificial no núcleo da rede representa uma das transformações mais profundas: o surgimento de sistemas auto-otimizáveis e sensíveis ao contexto que ultrapassam amplamente as capacidades atuais. Estes avanços tecnológicos estão a ser coordenados estrategicamente através de importantes iniciativas europeias de investigação e investimento.
A União Europeia está a apoiar esta transição através de programas coordenados no âmbito do Horizon Europe e do Digital Europe. No centro destes esforços está a Parceria Conjunta para Redes e Serviços Inteligentes (Smart Networks and Services Joint Undertaking, SNS JU), uma parceria público-privada lançada em 2021. Com um investimento combinado superior a 1.800 milhões de euros, a SNS JU promove a liderança europeia em investigação, inovação e normalização do 6G.
Um dos projectos emblemáticos dentro deste ecossistema é o Hexa-X, a primeira iniciativa europeia de investigação sobre 6G, que decorreu entre 2021 e 2023 sob coordenação da Nokia. Com 25 parceiros provenientes do meio académico e industrial, o Hexa-X tinha como objetivo definir a visão inicial, os principais casos de uso e os blocos tecnológicos fundamentais do 6G.
O seu âmbito incluía explorações sobre o acesso rádio na gama dos terahertz, a integração da IA para inteligência de rede e a conceptualização de aplicações em ambientes inteligentes e robótica. Para dar continuidade a estas bases, a UE lançou o Hexa-X-II em 2023, alargando o consórcio a 44 parceiros. Este novo projeto visa conceber uma arquitetura de sistema 6G completa, de ponta a ponta, que integre comunicação, deteção e computação. Destaca-se, em particular, a ênfase do Hexa-X-II na incorporação dos princípios europeus — confiança, sustentabilidade e inclusão — no próprio design das futuras redes, garantindo assim a sua consonância com os valores e objetivos estratégicos da UE.
A complementar estes esforços, o projeto 6G-Sandbox está a criar uma infraestrutura de testes paneuropeia, com localizações em Espanha, Finlândia, Grécia e Alemanha. Esta iniciativa permite ensaios reais de tecnologias 6G e atua como uma ponte crucial entre a investigação teórica e o lançamento prático. Outros projetos, como Terrameta e 6G-NTN, abordam desafios específicos como o desenvolvimento e integração de redes não terrestres — como satélites e plataformas de grande altitude — no ecossistema 6G mais alargado.
A nível mundial, o 6G consolidou-se como um campo-chave para a liderança tecnológica e económica. Países como a China, os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão estão a investir intensamente para influenciar a definição de normas globais e os futuros lançamentos do 6G. A China lidera atualmente os pedidos de patentes relacionados com o 6G e planeia realizar os seus primeiros testes em 2025. A estratégia sul-coreana K-Network 2030 visa a sua comercialização em 2028, enquanto os Estados Unidos apoiam o desenvolvimento do 6G através de iniciativas como a Next G Alliance e de investimentos previstos no seu Chips Act.
A estratégia europeia distingue-se pela sua abordagem assente na abertura, governação ética e coerência política. Embora mantenha quadros de cooperação com parceiros globais, a UE está, em simultâneo, a reduzir as suas dependências estratégicas e a reforçar a sua capacidade tecnológica interna. Iniciativas que combinam microeletrónica, computação de periferia e inteligência artificial fiável refletem esta visão integrada de soberania digital.
A visão europeia do 6G vai muito além das especificações técnicas. Baseia-se na ambição de construir uma rede segura, acessível e ambientalmente responsável. Os projetos financiados através da SNS JU priorizam explicitamente estes aspetos desde o início, integrando sustentabilidade e inclusão como princípios fundamentais.
Só para dar um exemplo, espera-se que as tecnologias 6G desempenhem um papel essencial no apoio ao Pacto Ecológico Europeu, permitindo redes energéticas mais eficientes, facilitando a monitorização climática em larga escala e apoiando processos industriais mais sustentáveis. Além disso, ao abordar lacunas de cobertura em regiões rurais ou negligenciadas, a infraestrutura 6G pretende reduzir a clivagem digital e garantir um acesso equitativo a serviços avançados em todas as comunidades.
O caminho para o 6G apresenta desafios complexos, como a harmonização regulamentar, o investimento em infraestruturas em larga escala e a formação da força de trabalho necessária. No entanto, a União Europeia já estabeleceu bases sólidas, com mais de 80 projetos de investigação e inovação concluídos ou em curso. Estes esforços estão a orientar coletivamente a Europa para um lançamento previsto em 2030.
À medida que a normalização avança e os lançamentos-piloto se iniciam, o compromisso da Europa com um futuro digital seguro, inclusivo e sustentável tornar-se-á ainda mais evidente. Se estas iniciativas mantiverem a sua trajetória atual, o 6G poderá tornar-se uma das grandes conquistas da Década Digital Europeia, não só transformando a conectividade, mas também redefinindo a forma como vivemos, interagimos e inovamos nos anos vindouros.

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