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Redes móveis

O salto estratégico da Europa rumo ao futuro da conectividade

Redes 6G na Europa
Sérgio Almeida

Sérgio Almeida

Consultor de Projetos Europeus

Imagina um mundo onde cirurgias críticas são realizadas remotamente, em tempo real, sem o mais pequeno atraso. Onde veículos autónomos tomam decisões em frações de segundo com base em enormes fluxos de dados, e estudantes assistem a aulas holográficas realistas a partir de regiões remotas ou continentes distantes. Estes cenários, outrora pertencentes à ficção científica, estão já a ser concebidos no quadro da próxima geração de redes móveis: o 6G.

Do ponto de vista dos atuais programas de investigação e inovação da UE focados nas tecnologias digitais, o 6G não é encarado apenas como uma evolução tecnológica, mas como um momento decisivo para definir como a Europa pretende moldar a sua soberania digital. As decisões políticas e de financiamento que forem tomadas hoje terão um impacto significativo nas redes das quais dependeremos nas próximas décadas.

Se o 5G representou avanços notáveis em velocidade e conectividade, o 6G responde a uma nova vaga de exigências tecnológicas e sociais. A explosão de dados, a integração da inteligência artificial nas operações de rede e a necessidade de comunicações ultra fiáveis e de baixa latência criam, em conjunto, a necessidade de desenvolver uma infraestrutura de rede mais avançada. O 6G pretende dar suporte a aplicações como gémeos digitais, realidade estendida, sistemas autónomos e saúde de precisão.

Os pilares tecnológicos do 6G incluem o uso de frequências na gama dos terahertz para transmissões de dados ultra-rápidas, arquiteturas nativas de inteligência artificial que permitam otimização em tempo real, capacidades integradas de deteção na própria rede e comunicações quânticas para segurança reforçada. Além disso, a convergência entre computação na periferia (edge computing) e em nuvem (cloud computing) permitirá uma distribuição de dados eficiente e uma resposta atempada.

Integrar a inteligência artificial no núcleo da rede representa uma das transformações mais profundas: o surgimento de sistemas auto-otimizáveis e sensíveis ao contexto que ultrapassam amplamente as capacidades atuais. Estes avanços tecnológicos estão a ser coordenados estrategicamente através de importantes iniciativas europeias de investigação e investimento.

Principais projetos europeus em redes 6G

A União Europeia está a apoiar esta transição através de programas coordenados no âmbito do Horizon Europe e do Digital Europe. No centro destes esforços está a Parceria Conjunta para Redes e Serviços Inteligentes (Smart Networks and Services Joint Undertaking, SNS JU), uma parceria público-privada lançada em 2021. Com um investimento combinado superior a 1.800 milhões de euros, a SNS JU promove a liderança europeia em investigação, inovação e normalização do 6G.

Um dos projectos emblemáticos dentro deste ecossistema é o Hexa-X, a primeira iniciativa europeia de investigação sobre 6G, que decorreu entre 2021 e 2023 sob coordenação da Nokia. Com 25 parceiros provenientes do meio académico e industrial, o Hexa-X tinha como objetivo definir a visão inicial, os principais casos de uso e os blocos tecnológicos fundamentais do 6G.

O seu âmbito incluía explorações sobre o acesso rádio na gama dos terahertz, a integração da IA para inteligência de rede e a conceptualização de aplicações em ambientes inteligentes e robótica. Para dar continuidade a estas bases, a UE lançou o Hexa-X-II em 2023, alargando o consórcio a 44 parceiros. Este novo projeto visa conceber uma arquitetura de sistema 6G completa, de ponta a ponta, que integre comunicação, deteção e computação. Destaca-se, em particular, a ênfase do Hexa-X-II na incorporação dos princípios europeus — confiança, sustentabilidade e inclusão — no próprio design das futuras redes, garantindo assim a sua consonância com os valores e objetivos estratégicos da UE.

A complementar estes esforços, o projeto 6G-Sandbox está a criar uma infraestrutura de testes paneuropeia, com localizações em Espanha, Finlândia, Grécia e Alemanha. Esta iniciativa permite ensaios reais de tecnologias 6G e atua como uma ponte crucial entre a investigação teórica e o lançamento prático. Outros projetos, como Terrameta e 6G-NTN, abordam desafios específicos como o desenvolvimento e integração de redes não terrestres — como satélites e plataformas de grande altitude — no ecossistema 6G mais alargado.

A nível mundial, o 6G consolidou-se como um campo-chave para a liderança tecnológica e económica. Países como a China, os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão estão a investir intensamente para influenciar a definição de normas globais e os futuros lançamentos do 6G. A China lidera atualmente os pedidos de patentes relacionados com o 6G e planeia realizar os seus primeiros testes em 2025. A estratégia sul-coreana K-Network 2030 visa a sua comercialização em 2028, enquanto os Estados Unidos apoiam o desenvolvimento do 6G através de iniciativas como a Next G Alliance e de investimentos previstos no seu Chips Act.

Impacto do 6G na soberania digital

A estratégia europeia distingue-se pela sua abordagem assente na abertura, governação ética e coerência política. Embora mantenha quadros de cooperação com parceiros globais, a UE está, em simultâneo, a reduzir as suas dependências estratégicas e a reforçar a sua capacidade tecnológica interna. Iniciativas que combinam microeletrónica, computação de periferia e inteligência artificial fiável refletem esta visão integrada de soberania digital.

A visão europeia do 6G vai muito além das especificações técnicas. Baseia-se na ambição de construir uma rede segura, acessível e ambientalmente responsável. Os projetos financiados através da SNS JU priorizam explicitamente estes aspetos desde o início, integrando sustentabilidade e inclusão como princípios fundamentais.

Só para dar um exemplo, espera-se que as tecnologias 6G desempenhem um papel essencial no apoio ao Pacto Ecológico Europeu, permitindo redes energéticas mais eficientes, facilitando a monitorização climática em larga escala e apoiando processos industriais mais sustentáveis. Além disso, ao abordar lacunas de cobertura em regiões rurais ou negligenciadas, a infraestrutura 6G pretende reduzir a clivagem digital e garantir um acesso equitativo a serviços avançados em todas as comunidades.

O caminho para o 6G apresenta desafios complexos, como a harmonização regulamentar, o investimento em infraestruturas em larga escala e a formação da força de trabalho necessária. No entanto, a União Europeia já estabeleceu bases sólidas, com mais de 80 projetos de investigação e inovação concluídos ou em curso. Estes esforços estão a orientar coletivamente a Europa para um lançamento previsto em 2030.

À medida que a normalização avança e os lançamentos-piloto se iniciam, o compromisso da Europa com um futuro digital seguro, inclusivo e sustentável tornar-se-á ainda mais evidente. Se estas iniciativas mantiverem a sua trajetória atual, o 6G poderá tornar-se uma das grandes conquistas da Década Digital Europeia, não só transformando a conectividade, mas também redefinindo a forma como vivemos, interagimos e inovamos nos anos vindouros.

Pessoa especialista

Sérgio Almeida
Sérgio Almeida

Sede de Lisboa

Consultor de Projetos Europeus