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Inovação social

A preparação societal redefine a inovação na Europa

O essencial

A Europa começa a assumir que a inovação não pode ser medida apenas pela sua maturidade tecnológica ou pelo seu potencial de mercado. Os ‘societal readiness pilots’ introduzem uma lógica diferente: avaliar, desde o início, se uma solução pode ser compreendida, aceite e implementada em contextos sociais reais. A mudança não é menor, porque desloca o foco da mera viabilidade técnica para a legitimidade, a participação e a capacidade de promover integraçao duradoura. No fundo, Bruxelas começa a reconhecer que inovar também exige preparar a sociedade para participar ativamente na mudança.

A técnica não basta. Muitos projetos falham, mesmo quando funcionam, porque não compreendem o contexto social em que procuram ser implementados.
A Europa muda de abordagem. O Horizon Europe integra pilotos que também medem a maturidade societal da inovação.
A sociedade entra mais cedo. Estes pilotos integram participação, cocriação e análise de barreiras desde a conceção do projeto.
O TRL já não chega. A preparação técnica continua a ser importante, mas já não explica, por si só, o sucesso de uma solução.
Inovar exige legitimidade. As soluções enraízam-se melhor quando geram confiança, se adequam aos territórios e respondem a necessidades reais.
Silvia Agrafojo

Silvia Agrafojo

Líder da área de Inovação social de Projetos europeus

Durante anos, uma parte significativa do ecossistema europeu da inovação operou com base numa premissa implícita: para ser considerada bem-sucedida, uma solução tinha de ser tecnicamente sólida, financeiramente viável e escalável. Esta abordagem tende a relegar para segundo plano os atores envolvidos nos processos de conceção, produção e comercialização. A experiência acumulada em áreas como a energia, a mobilidade, a digitalização, a habitação ou a transição industrial demonstra, contudo, que esta sequência nem sempre funciona. Na verdade, por vezes acontece o contrário: projetos tecnicamente brilhantes falham não por falta de excelência científica, mas por não terem compreendido atempadamente o contexto social em que pretendiam ser implementados.

É precisamente aqui que o conceito de preparação societal (societal readiness) ganha sentido, e que se torna visível a sua incorporação em projetos-piloto incluídos em determinados topics do Horizon Europe. Estes não devem ser interpretados como uma moda terminológica nem como uma exigência meramente formañ, mas sim como um sinal de mudança estrutural: a Comissão Europeia começa a reconhecer que a inovação não pode ser avaliada apenas pelo seu grau de maturidade tecnológica, mas também pelo seu grau de maturidade societal.

O que são os ‘societal readiness pilots’?

Em termos concretos, os societal readiness pilots são linhas-piloto que incorporam, desde a própria conceção do projeto, uma avaliação e uma construção deliberada das condições sociais necessárias para que uma inovação possa ser adotada, compreendida, aceite e gerar impacto real.

Não se limitam, portanto, a validar uma solução do ponto de vista técnico. O seu objetivo é também testar a sua adequação social: de que forma responde a necessidades reais, como afeta diferentes grupos, que resistências pode gerar, que capacidades institucionais ou comunitárias exige e que tipo de participação é necessária para que a sua implementação seja viável e legítima.

Dito de outro modo, estes pilotos partem de uma ideia simples, mas de grande alcance: uma inovação não está verdadeiramente preparada apenas porque funciona, mas porque pode integrar-se de forma efetiva na vida social, institucional e territorial. Por isso, estas abordagens costumam incorporar componentes como a participação precoce de atores relevantes, a cocriação com utilizadores ou comunidades, a identificação de barreiras culturais ou sociais, a integração das Ciências Sociais e Humanas (SSH) e a análise das condições de adoção para lá do mero desempenho técnico.

Do TRL à preparação societal

Esta evolução marca uma mudança relevante. Durante muito tempo, a conversa sobre a preparação dos projetos foi dominada por referenciais como o avanço técnico de uma determinada tecnologia (technology readiness level, TRL). Mais recentemente, também ganharam espaço noções como a preparação para o mercado ou a capacidade de exploração. Mas a dimensão social permaneceu, em demasiadas ocasiões, num plano secundário: como requisito transversal, como secção de impacto, ou como exercício de participação introduzido no final da conceção do projeto.

Os societal readiness pilots vêm precisamente questionar essa lógica. Obrigam-nos a perguntar não apenas se uma inovação pode funcionar, mas se pode fazê-lo com a sociedade, para a sociedade e dentro da sociedade. Ou seja: se responde a necessidades reais, se dialoga com as capacidades e expectativas dos territórios, se antecipa resistências, se integra perspetivas diversas e se é capaz de gerar legitimidade social, para além do desempenho técnico.

Uma perspetiva-chave para a inovação social

Do ponto de vista da inovação social, esta mudança é particularmente significativa. Durante anos, este campo tem defendido que os grandes desafios contemporâneos não podem ser enfrentados a partir de uma lógica puramente setorial ou tecnocrática. A exclusão, as desigualdades territoriais, a transição ecológica justa, o envelhecimento, a coesão democrática ou a aceitação social de novas infraestruturas são desafios complexos, atravessados por fatores culturais, institucionais, económicos e relacionais.

Não basta conceber soluções tecnicamente viáveis; é também necessário desenhar melhores condições de adoção, apropriação e governação. Nesse sentido, os societal readiness pilots não devem ser lidos apenas como uma oportunidade para incorporar atividades participativas ou reforçar a presença das SSH nas propostas europeias. Isso seria reduzir o seu alcance. O seu potencial transformador é maior: convidam a repensar a própria arquitetura do projeto inovador.

Inovar também é construir legitimidade

Um projeto socialmente preparado não é aquele que consulta as suas partes interessadas numa fase pontual, mas sim aquele que integra a inteligência social na sua própria lógica de intervenção. Isto implica, entre outras coisas, identificar desde o início que atores serão afetados, que tensões poderão emergir, que barreiras culturais ou institucionais irão condicionar a implementação, que capacidades têm de ser ativadas a nível local e que formas de cocriação permitem ajustar a solução a realidades diversas.

Presuppõe também assumir que a aceitação social não é um resultado automático da informação ou da comunicação, mas uma construção que depende de confiança, reciprocidade e sentido partilhado.

Por isso, a relevância desta abordagem vai para além dos projetos explicitamente sociais. De facto, um dos sinais mais interessantes da atual agenda europeia é que a dimensão social começa a penetrar em áreas tradicionalmente consideradas técnicas: energia, mobilidade, indústria ou digitalização. Não se trata de acrescentar uma componente social para cumprir uma expectativa política. Trata-se de compreender que, em todos estes domínios, a viabilidade das soluções depende cada vez mais de fatores sociais: hábitos de utilização, perceção do risco, equidade distributiva, participação comunitária, capacidade institucional e justiça territorial.

O que muda para quem prepara projetos europeus

Esta mydança tem consequências importantes para quem concebe e acompanha projetos europeus. A primeira é estratégica: já não basta enquadrar uma ideia num aviso ou concurso; é preciso demonstrar que essa ideia compreende o ecossistema humano, social e institucional em que pretende intervir. A segunda é metodológica: a interdisciplinaridade deixa de ser uma aspiração genérica e passa a ser uma condição operacional real. E a terceira é política: a inovação europeia começa a reconhecer que transformar sociedades não consiste apenas em transferir tecnologia, mas em construir processos legítimos, inclusivos e sensíveis ao contexto.

Esta abordagem abre um caminho promissor. Recorda-nos algo essencial: em contextos de transformação acelerada, a inovação relevante não é a que chega primeiro, mas a que consegue enraizar-se melhor. E, para se enraizar, uma solução tem de ser tecnicamente robusta, sim, mas também socialmente inteligível, institucionalmente viável e democraticamente sustentável.

A Europa parece começar a assumi-lo. E esse será talvez um dos sinais mais interessantes do momento atual: a constatação de que a inovação do futuro não se decidirá apenas em laboratórios, centros tecnológicos ou mercados, mas também na capacidade de ouvir, envolver e preparar a sociedade para participar ativamente na mudança.

Pessoa especialista

Silvia Agrafojo
Silvia Agrafojo

Sede de Bilbau

Líder da área de Inovação social de Projetos europeus