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STEP

A biotecnologia portuguesa enfrenta o desafio de ganhar escala

O essencial

A biotecnologia portuguesa dispõe de competências científicas e potencial industrial, mas enfrenta desafios na transição da investigação para a produção em larga escala. O aviso STEP Digital e Biotecnologia representa uma oportunidade para apoiar o desenvolvimento tecnológico, reforçar a capacidade produtiva e aumentar a competitividade das empresas portuguesas.

Potencial da biotecnologia portuguesa. Portugal reúne competências científicas, empresas tecnológicas e capacidades industriais em diferentes áreas da biotecnologia.
Desafios da industrialização. A passagem do laboratório à produção industrial exige investimento, infraestruturas adequadas e validação tecnológica.
Barreiras ao crescimento. As empresas enfrentam dificuldades de financiamento, complexidade regulamentar e escassez de talento especializado.
Oportunidades do STEP. O aviso STEP Digital e Biotecnologia pode apoiar projetos que articulem desenvolvimento tecnológico e investimento industrial.
Competitividade europeia. O reforço da produção biotecnológica pode consolidar cadeias de valor estratégicas e reduzir dependências externas.
Maria João Sarmento

Maria João Sarmento

Consultora sénior de inovação

A aposta europeia na biotecnologia vai muito além da investigação científica. Num contexto de crescente concorrência internacional e de necessidade de reduzir dependências estratégicas, a União Europeia procura reforçar a sua capacidade de desenvolver e fabricar tecnologias críticas, assegurando que o conhecimento gerado se transforma também em valor económico e capacidade industrial. Esta prioridade está refletida na Comunicação Europeia sobre Biotecnologia e Biofabricação, de 2024, e na Estratégia Europeia para as Ciências da Vida, de 2025, encontrando na Plataforma de Tecnologias Estratégicas para a Europa (STEP) um dos instrumentos para a sua concretização.

Competências científicas e potencial industrial em Portugal

Em Portugal, a biotecnologia apresenta um ecossistema diversificado, que combina investigação científica, empresas de base tecnológica e capacidades industriais especializadas. A saúde concentra mais de 90% das receitas do setor, embora áreas como a biotecnologia marinha, agroalimentar e industrial tenham vindo a ganhar expressão.

Esta diversidade traduz-se em diferentes oportunidades de desenvolvimento tecnológico. Na saúde, destacam-se competências em cultura e engenharia celular, terapias avançadas e desenvolvimento de biomoléculas. Na vertente industrial, áreas como a fermentação de precisão, a produção de microalgas, o bioprocessamento e a valorização de recursos biológicos oferecem oportunidades para desenvolver ingredientes, materiais e processos de elevado valor acrescentado.

Apesar deste dinamismo, a valorização industrial das tecnologias biotecnológicas continua a enfrentar desafios que variam consoante a sua maturidade e aplicação. Enquanto algumas empresas procuram demonstrar a viabilidade dos seus processos à escala industrial, outras enfrentam necessidades de expansão produtiva, validação regulamentar ou acesso a novos mercados. Entre os principais desafios estruturais do setor destacam-se as dificuldades de acesso a financiamento, a disponibilidade limitada de infraestruturas produtivas adequadas, a complexidade regulamentar e os desafios na atração e retenção de talento especializado.

Industrializar a biotecnologia exige ir além da validação científica

Na biotecnologia, demonstrar que uma solução funciona em laboratório constitui apenas uma parte do percurso até à sua exploração comercial. A transição para a produção industrial apresenta desafios específicos, que diferem significativamente entre tecnologias e áreas de aplicação.

Nos bioprocessos, por exemplo, uma solução eficaz à escala laboratorial pode enfrentar dificuldades quando transposta para volumes de produção superiores, exigindo a otimização dos rendimentos, dos processos de purificação e dos custos de fabrico. Nas terapias celulares, os desafios são distintos, envolvendo a reprodutibilidade dos processos, a garantia de qualidade, a rastreabilidade e o cumprimento de requisitos regulamentares exigentes. Em ambos os casos, a validação científica é apenas uma das condições necessárias para alcançar uma produção viável e competitiva.

Mas a capacidade de produzir não garante, por si só, o sucesso comercial. A competitividade dos custos, a existência de procura, o acesso a clientes e parceiros industriais e os requisitos de entrada no mercado são igualmente determinantes. A transição da investigação para o mercado exige, por isso, uma combinação de maturidade tecnológica, capacidade produtiva e estratégia comercial.

Esta passagem exige mais do que financiamento para investigação. Requer investimento em instalações-piloto, demonstração e validação industrial, infraestruturas produtivas, competências especializadas e parcerias capazes de aproximar o desenvolvimento tecnológico das necessidades do mercado.

A STEP pode transformar potencial tecnológico em capacidade industrial

É precisamente nesta transição que a STEP pode desempenhar um papel relevante para a biotecnologia portuguesa. Em Portugal, os instrumentos de I&D&I empresarial e de inovação produtiva orientados para tecnologias críticas oferecem oportunidades para articular desenvolvimento tecnológico e investimento industrial, contribuindo para ultrapassar obstáculos associados à maturação, escalabilidade e fabrico de soluções biotecnológicas.

A oportunidade não reside apenas em acelerar a chegada de novas tecnologias ao mercado, mas também em reforçar a capacidade europeia de produzir produtos e processos biotecnológicos, consolidar cadeias de valor estratégicas e reduzir dependências externas em áreas críticas para a saúde e a indústria.

Naturalmente, o financiamento não elimina os riscos tecnológicos, regulamentares ou comerciais. O verdadeiro impacto da STEP dependerá da capacidade das empresas para estruturar projetos que combinem diferenciação tecnológica, viabilidade produtiva, potencial de mercado e alinhamento com as prioridades estratégicas da União Europeia.

Para a biotecnologia portuguesa, o desafio não passa apenas por continuar a gerar conhecimento, mas por criar as condições necessárias para que esse conhecimento se traduza em produtos e processos competitivos, novas capacidades industriais e maior integração nas cadeias de valor europeias. Trata-se também de uma oportunidade para Portugal reforçar a sua capacidade de captar o valor económico gerado pelas suas competências científicas e tecnológicas, contribuindo simultaneamente para a autonomia estratégica europeia.

Na Zabala Innovation apoiamos as empresas na estruturação deste percurso, articulando estratégia de inovação, desenvolvimento tecnológico e oportunidades de financiamento para transformar o potencial científico em investimentos com impacto industrial e económico.

Pessoa especialista

Maria João Sarmento
Maria João Sarmento

Sede de Lisboa

Consultora sénior de inovação