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clusters

Uma voz partilhada em construção

O essencial

Os clusters de projetos europeus assumem uma importância crescente num ecossistema de investigação marcado por desafios complexos e ambições partilhadas. No entanto, o seu impacto não depende apenas do alinhamento temático ou da realização de atividades conjuntas, mas também da capacidade de construir uma voz coletiva coerente através da comunicação.

Agrupar projetos exige mais do que proximidade. Reunir projetos em torno de temas comuns é apenas o ponto de partida; o verdadeiro valor surge quando as suas mensagens, resultados e ambições começam a reforçar-se mutuamente.
A comunicação cria coerência. Webinars, campanhas e eventos conjuntos podem aumentar a visibilidade, mas é a comunicação que liga estas ações ao longo do tempo e as transforma numa narrativa partilhada.
A fragmentação continua a ser um desafio. Mesmo em clusters ativos, os projetos tendem a comunicar de acordo com os seus próprios calendários, prioridades e entregáveis, limitando o impacto coletivo.
Uma voz partilhada exige continuidade. Os clusters precisam de uma orientação narrativa consistente, alinhamento de mensagens e coordenação para além dos limites de cada projeto.
A comunicação deve fazer parte do processo. Para que o potencial dos clusters se concretize, a comunicação deve estar envolvida desde o início e ser reconhecida como uma função estratégica, e não apenas como uma ferramenta para divulgar resultados finais.
Janire García

Janire García

Líder da área de Disseminação e Comunicação de Projectos Europeus

No panorama europeu da investigação, os projetos raramente se desenvolvem de forma isolada. Nascem, evoluem e convergem em torno de ambições partilhadas. Neste sentido, os clusters não são uma novidade, mas sim uma resposta quase natural à crescente complexidade dos desafios que procuram enfrentar. E, ainda assim, muitas vezes falta algo essencial.

Embora os projetos sejam agrupados em torno de temáticas comuns, as suas vozes continuam dispersas e as suas histórias fragmentadas. O que deveria tornar-se uma narrativa coletiva acaba, demasiadas vezes, por se diluir em conversas paralelas que disputam a atenção do mesmo público.

As afinidades temáticas e tecnológicas podem aproximar os projetos, mas é a comunicação que os une num todo coerente. E, em última análise, é ela que lhes dá uma voz própria.

A promessa do alinhamento

Os clusters de projetos europeus aspiram a mais do que a simples proximidade. Propõem uma forma de alinhamento: um esforço para ligar conhecimento, reduzir a fragmentação e ampliar o alcance dos resultados para além das fronteiras de um único projeto.

No contexto europeu da investigação, esta promessa é particularmente apelativa: a ideia de que, através da coordenação, os projetos não só coexistam, mas consigam gerar maior impacto junto das políticas públicas, da indústria e da sociedade. No entanto, esta promessa não se concretiza por si só.

É necessário construí-la, com intenção e persistência, através de práticas partilhadas. Os clusters ganham forma na repetição discreta das reuniões de coordenação, no alinhamento gradual das mensagens e no esforço comum para comunicar em conjunto, em vez de apenas lado a lado.

Também emergem através de campanhas colaborativas e de momentos coletivos de visibilidade — um webinar, um painel partilhado numa conferência ou uma publicação conjunta — nos quais os projetos começam a reconhecer-se como parte de uma narrativa mais ampla.

Mesmo os elementos mais tangíveis, como identidades visuais ou materiais de comunicação comuns, contribuem para afirmar o cluster como uma entidade coletiva. Com o tempo, estes gestos acumulam-se e aquilo que parecia um agrupamento informal começa a adquirir uma forma reconhecível do exterior.

A fragmentação persiste

E, no entanto, mesmo quando estas práticas existem, os clusters nem sempre conseguem alcançar a ligação que prometem. Os mecanismos estão presentes, as atividades conjuntas avançam, mas continua a haver algo que resiste à consolidação.

Muitas vezes, a comunicação permanece ancorada ao nível de cada projeto, condicionada pelos seus calendários, entregáveis e prioridades internas.

Procura-se o alinhamento, mas nem sempre ele se mantém ao longo do tempo. Existe colaboração, mas nem sempre ela se traduz numa voz partilhada. O resultado é uma forma de coexistência mais do que de convergência, em que os esforços se acumulam sem se reforçarem plenamente entre si.

No centro desta questão existe uma ausência estrutural. Raramente os projetos dispõem de um centro de gravidade claramente definido em torno do qual se possam organizar: uma função responsável não apenas pela coordenação, mas também pela orientação da narrativa comum.

Neste contexto, a comunicação ocupa um espaço ambíguo: é essencial para o sucesso do cluster, mas aproxima-se de uma função de supra-coordenação sem um âmbito de responsabilidade formalmente reconhecido.

Trata-se de uma função que exige tempo e continuidade para além dos limites de cada projeto e que corre o risco de ser encarada como um encargo adicional, em vez de um investimento partilhado.

Quando este esforço é assumido coletivamente, ganha consistência. O que está disperso alinha-se. O que parecia duplicado reduz-se.

Onde a comunicação intervém

Um cluster não se torna coerente apenas porque os projetos colaboram. As atividades existem: webinars conjuntos, campanhas partilhadas e eventos comuns. Mas, por si só, nem sempre criam ligação. Geram visibilidade, mas não necessariamente continuidade.

O que falta não são mais ações, mas sim o esforço de as ligar ao longo do tempo. Isso exige dedicação e um nível de atenção que vai além das responsabilidades imediatas de cada projeto.

A certa altura, alguém tem de assumir essa tarefa. Não necessariamente de forma formal, mas na prática: acompanhar o que os outros estão a fazer, identificar ligações, alinhar mensagens e orientar o rumo na mesma direção.

Muitas vezes, este papel acaba por ser desempenhado pelas equipas de comunicação que trabalham de forma transversal em vários projetos, mesmo que essa responsabilidade não esteja explicitamente definida.

Para que isto funcione, a comunicação deve fazer parte do processo e não ser chamada apenas no final. Isto implica confiança. As equipas técnicas e os parceiros devem estar abertos a permitir que a comunicação ajude a moldar a forma como os resultados são apresentados coletivamente, como um esforço conjunto, e não apenas a traduzir resultados quando estes já estão concluídos.

O trabalho de construir um todo

Num contexto em que a colaboração é cada vez mais incentivada, é provável que os clusters continuem a ser uma característica marcante do panorama europeu da investigação. A questão deixará de ser se as iniciativas devem trabalhar juntas e passará a ser como tornar essa proximidade significativa durante o ciclo de vida dos projetos e para além dele.

Isto não acontece automaticamente por existirem objetivos comuns, nem pela multiplicação de atividades. O esforço de ligar, alinhar e manter um sentido de direção constrói-se continuamente. Afinal, a maioria das iniciativas não foi originalmente concebida para ser agrupada e funcionar como uma única entidade.

É aqui que a comunicação assume um papel diferente. Não como uma camada transversal acrescentada ao processo, mas como parte integrante do mecanismo que permite relacionar resultados entre si, tornando-os intencionais, reconhecidos, acompanhados e compreendidos.

E talvez seja precisamente nesse momento que os clusters cumprem a sua promessa: não apenas como uma forma de reunir projetos, mas como uma forma de lhes permitir falar.

Pessoa especialista

Janire García
Janire García

Sede de Bruxelas

Líder da área de Disseminação e Comunicação de Projectos Europeus

Não se trata do setor, trata-se do projeto

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