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Defesa

A inovação continua a marcar o acesso real à defesa europeia

O essencial

O Fundo Europeu de Defesa (FED) continua a ser um instrumento decisivo para as empresas inovadoras que já dispõem de uma proposta tecnológica sólida e de capacidade de cooperação europeia. Embora o foco político se tenha deslocado para a capacidade industrial, o aprovisionamento e a disponibilidade de meios, a I&D colaborativa continua a ser o espaço onde verdadeiramente se constrói o posicionamento europeu.

O FED continua a ser decisivo. O fundo mantém um papel fundamental na validação e no posicionamento de capacidades tecnológicas na Europa.
A I&D mantém a sua centralidade. A Europa não exige menos inovação, mas sim uma inovação mais madura e mais ligada ao ciclo industrial.
O consórcio é determinante. O FED permite reunir os parceiros adequados e reforçar uma posição comum à escala europeia.
A base tecnológica está a alargar-se. O novo contexto integra atores com capacidades diferenciadoras e tecnologias de dupla utilização.
O posicionamento é essencial. As empresas que encaram o FED como uma alavanca estratégica chegam melhor preparadas à fase seguinte do ciclo.
Valeria Pérez de Ciriza

Valeria Pérez de Ciriza

Líder da área de Segurança, espaço e defesa em Projetos europeus

No contexto do novo ciclo europeu da defesa, importa evitar leituras precipitadas. O debate político e institucional deslocou-se para a capacidade industrial, o aprovisionamento e a disponibilidade operacional. No entanto, interpretar esta mudança como uma perda de relevância da inovação seria um erro. Pelo contrário: a inovação continua a ser o ponto de partida sobre o qual assenta o restante ciclo.

Para as empresas que já dispõem de uma proposta tecnológica sólida e de capacidade de cooperação à escala europeia, o Fundo Europeu de Defesa (FED) continua hoje a ser o principal espaço para validar a sua proposta, construir alianças e reforçar o seu posicionamento no ecossistema europeu de defesa. Esta é a primeira ideia que importa sublinhar. Não porque o FED seja o único instrumento relevante, nem porque constitua uma porta de entrada automática para qualquer entidade, mas porque continua a ser o espaço através do qual a Europa organiza a cooperação tecnológica, estrutura prioridades comuns e transforma necessidades partilhadas em projetos concretos de investigação e desenvolvimento.

Enquanto outras iniciativas respondem a fases posteriores do ciclo, o FED mantém uma função decisiva: identificar capacidades com potencial, reunir os parceiros certos e acelerar a sua maturação numa lógica europeia.

É precisamente esse papel que explica o seu valor singular. Nem todas as organizações são chamadas a participar nas mesmas etapas do ciclo, nem todas acedem pelas mesmas vias. Em muitos casos, a integração no ecossistema da defesa começa mais cedo, através de relações industriais pré-existentes, colaborações tecnológicas, programas nacionais ou cadeias de abastecimento já estabelecidas. É precisamente por isso que o FED é estratégico: não substitui esses percursos, mas dá-lhes escala, coerência e visibilidade europeia.

Para uma PME tecnológica, uma mid-cap industrial ou um centro tecnológico, a questão raramente passa por aceder diretamente à fase final, mas antes por construir uma posição credível dentro do ecossistema europeu. Nesse sentido, o FED continua a ser, em larga medida, o enquadramento decisivo.

A centralidade da I&D mantém-se

Importa insistir neste ponto, porque a intensidade do debate atual pode facilmente levar a confundir visibilidade com centralidade. É evidente que a discussão europeia incorporou novos instrumentos, como os programas EDIP e SAFE. Contudo, interpretar esta evolução como um afastamento de I&D para segundo plano, seria um erro de diagnóstico.

O que está a mudar não é a importância da inovação, mas o nível de exigência relativamente à sua continuidade. A Europa não irá pedir menos tecnologia, mas antes tecnologia mais preparada para integrar cadeias de valor, avançar para fases de escalabilidade e dar consistência a uma agenda comum.

É precisamente aqui que o FED conserva toda a sua relevância. O fundo não financia apenas tecnologia, mas também trajetórias. Permite validar soluções num contexto europeu, construir consórcios com massa crítica, elevar a maturidade tecnológica e posicionar organizações em redes de cooperação que ultrapassam a dimensão nacional. Para muitas empresas, este posicionamento é tão valioso quanto o próprio financiamento.

Este ponto é particularmente importante para entidades que não pertencem ao núcleo tradicional do setor, mas que dispõem de capacidades diferenciadoras. O novo contexto europeu não reduz necessariamente o espaço para estes atores. Em muitos casos, até o amplia, desde que apresentem uma proposta tecnológica clara, um enquadramento credível e vontade de cooperação.

A defesa europeia necessita hoje de uma base tecnológica diversificada, capaz de integrar conhecimento avançado em áreas como sensores, software, comunicações seguras, materiais, sistemas autónomos, cibersegurança, energia ou soluções de dupla utilização. Este tipo de contributo raramente entra pela fase final do ciclo. Pelo contrário, surge através do trabalho prévio de investigação, validação e cooperação que o FED precisamente procura estruturar.

Posicionar-se antes da fase seguinte

Assim, a questão estratégica para muitas empresas não deve ser formulada em termos de substituição. Não se trata de escolher entre o FED e a fase seguinte do ciclo, mas sim de compreender o FED como o passo necessário para lá chegar em melhores condições.

A diferença é relevante. Quem encara o fundo apenas como um calendário de avisos tende a subaproveitá-lo. Quem o entende como uma ferramenta de posicionamento estratégico maximiza verdadeiramente o seu valor.

Neste momento, o maior risco não é o FED ter perdido relevância, mas sim ficar ocultado pela intensidade do debate que o rodeia. E esta seria uma conclusão errada. Para muitas empresas inovadoras, o acesso real ao ecossistema europeu de defesa não começa quando uma capacidade já está pronta para ser implementada, mas antes: quando uma tecnologia é validada, partilhada e integrada numa lógica europeia de cooperação. E esse continua a ser, de forma clara, o território próprio do FED.

Se a Europa pretende reforçar a sua base tecnológica e assegurar continuidade às suas prioridades comuns, a I&D colaborativa continuará a ser uma peça essencial. Se as empresas quiserem integrar este novo ciclo com credibilidade, ambição e visão de longo prazo, farão bem em olhar não apenas para onde o ciclo termina, mas sobretudo para onde se valida e estrutura verdadeiramente um posicionamento europeu com futuro. Hoje, esse espaço continua a ter um nome claro: Fundo Europeu de Defesa.

Pessoa especialista

Valeria Pérez de Ciriza
Valeria Pérez de Ciriza

Sede de Pamplona

Líder da área de Segurança, espaço e defesa em Projetos europeus